domingo, 30 de dezembro de 2012

Contra Todos

“Cidade de Deus” fez escola no cinema brasileiro e contagiou um punhado de realizadores, que apostaram em uma estética semelhante para obter algum sucesso. Exemplo disso é “Contra Todos” (2004), filme de estreia do diretor Roberto Moreira e com os mesmos produtores do longa citado anteriormente, que joga o espectador em um universo repleto de crises, pobrezas, traições e mudança de destinos.
 
A trama gira em torno de um matador de aluguel Teodoro (Giulio Lopes), que atua em um bairro da periferia de São Paulo eliminando ‘gente indesejável na comunidade’. O assassinato do filho de um açougueiro amigo da família do tal ‘justiceiro’ origina uma crise entre seus parentes e faz com que todos entrem numa miscelânea de conflitos e mentiras.
 
O diretor investe em boa parte da ideia de “Cidade de Deus” na construção atmosférica de “Contra Todos”: radicalização, violência, ousadia, linguagem coloquial e improvisações. “Os atores aceitaram participar do filme sem conhecer o roteiro e durante os ensaios descobriram e vivenciaram a história. Queria algo que não fosse falso, nossa tradição sempre foi teatral e exagerada, seja nos bons como nos maus filmes”, afirma Moreira em entrevista coletiva no lançamento do filme.
 
Além disso, Moreira busca no gênero documentário algumas opções que deixam o seu longa atrativo, como a estética amadora e hiper-realista. “É um registro naturalista, cru, direto, limpo e verdadeiro. A opção foi tratar a ficção como se fosse um documentário”, disse o diretor. O registro em tom documental e a liberdade de improvisação fizeram com que o roteiro fosse alterado diversas vezes devido a aspectos inesperados da história. De acordo com Moreira, a cada nova reunião com o elenco, o script era modificado e cada ator teve total liberdade de criar as motivações de seu personagem e “nesse processo eles inventaram cinco roteiros diferentes”.
 
Outro aspecto técnico importante, além da filmagem em vídeo digital, é a utilização da câmera inquieta (na mão), pouca trilha sonora, gravação em locações e o uso da iluminação natural, o que faz do estilo de Moreira, aqui, ser uma referência ao cinema neo-realista inspirado no movimento Dogma 95.
 
Além de fugir do clichê sociológico e de amarrar bem as reviravoltas, o roteiro proporciona um clímax surpreendente e a edição abusa de um jogo cronológico em sua montagem, em que o espectador acompanha a trajetória e os pontos de vista diferentes de cada personagem no desfecho melancólico.
 
No fim das contas, a homenagem de Moreira a Mário de Andrade com a frase “cada um por si e Deus contra todos” retrata bem a forte temática levantada. Além disso, o filme critica à sociedade moderna que não respeita o senso social e transforma a realidade numa atmosfera de angústia e emoção tendo como principal consequência à hipocrisia catastrófica.
 
Os depoimentos de Roberto Moreira neste texto foram coletados por mim durante sua entrevista coletiva (em que estive presente) no lançamento de “Contra Todos” em sessão exclusiva para a imprensa, em Belo Horizonte.
 
Contra Todos
BRA, 2004 – 95 minutos
Drama
Direção: Roberto Moreira
Roteiro: Roberto Moreira
Elenco: Leona Cavalli, Sílvia Lourenço, Aílton Graça, Giulio Lopes, Martha Meola, Dionísio Neto, Gustavo Machado, Paula Pretta, Ismael de Araujo.
Cotação: * * * *