quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Que horas ela volta?

Qualquer empregado, seja de uma empresa ou do lar, tem sua vida ligada ao trabalho, de onde tira o sustento. Pessoas passam um terço do dia (no mínimo) em algum lugar para que os chefes ganhem dinheiro ou gastem com algum tipo de manutenção. Muitas vezes esse ganho é mal repassado para aqueles que não deixam a engrenagem parar. Geralmente, quanto mais baixo for o cargo do funcionário, menos valorizado é. O empregado doméstico talvez seja o retrato mais claro, não só da diferença entre a relação funcionário-patrão (ou rico-pobre), mas do comportamento humano numa sociedade desequilibrada que 'preza', subliminarmente, pelo escravismo, pela hierarquia (neoliberal), pelo preconceito e pelas imposições e pela hipocrisia.
 
O parágrafo acima é a principal mensagem do filme "Que horas ela volta?", dirigido por Anna Muylaert, que aborda a realidade no relacionamento de quem manda e de quem obedece. O filme tem um realismo incrível, seja pelas atuações convincentes (destaque para a excelente atuação de Regina Casé), pelos bons diálogos ou pela câmera estática que observa os movimentos rotineiros de uma casa de classe alta.
 
O dia-a-dia da empregada doméstica Val (Casé), uma pernambucana que veio para São Paulo em busca de trabalho, é tranquilo. Ela mora no próprio serviço, tem muitos afazeres, cumpre exatamente o que os patrões exigem e é, aparentemente, respeitada (como se fosse da família). Val, inclusive, tem um relacionamento quase materno com Fabinho (Michel Joelsas), o filho do casal para quem trabalha, que já foi babá e o viu crescer. A rotina e os comportamentos dos personagens começam a mudar quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), que não vê a 10 anos, vem para a capital para ficar com a mãe e prestar vestibular.
 
A garota, de forte personalidade, desestrutura o 'sistema' da família e, também, de sua mãe, que tem métodos de trabalho que respeitam a hierarquia do lugar. A partir daí, tudo começa a mudar e a 'ordem estabelecida' pelos patrões de Val se desestabiliza ocasionando situações ricas em discussões antropológicas, inversões de valores e, principalmente, no retrato de conceitos citados no fim do primeiro parágrafo deste texto.
 
Tudo no filme acontece de forma sutil e com humor rasteiro situacional pontual, inclusive na reviravolta final, que mostra a completa transformação e liberdade da protagonista. "Que horas ela volta?" é um belo estudo do comportamento humano que, apesar de mostrar que certos conceitos não mudam, apenas trocam de nome, nos alerta para valorizar o que temos de mais importante: a vida e a família.
 
Que horas ela volta?
2015, BRA - 114 minutos
Drama/Comédia
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Regina Casé, Ana Paula Csernik, Bete Dorgam, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas, Camila Márdila
Cotação: * * * *
 
Termômetro:
- Humor: * * *
- Drama: * * * *
- Romance: *
- Fantasia: *
- Ação / Aventura: *
- Policial: *
- Suspense: *  
- Sexualidade: *
- Escatologia: *   
- Violência: *